A Coruja de Monte Suntria

Suntria é uma das denominações de Sintra...O Monte da Lua ...a coruja...sou eu!
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sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Pirulitos de mel


Lembro-me quando era "mocinha" (como dizia a minha tia Bia) e estava a passar férias em Serpa (para quem não sabe, Shirba era o nome mouro de Serpa), os meus primos iam a casa de uma senhora muito velha,(pelo menos é essa a ideia com que fiquei, pois só a vi de relance, vestida com o "traje" que as mulheres idosas e viuvas usavam, de preto ou muito escuro, saia comprida, xale pelas costas e lenço a envolver a cabeça na forma tipica do alentejo, resquicios da herança muçulmana, em que as pontas do lenço se sobrepõem, sem nós). Essa senhora tinha uma "escolinha" em casa, uma catrefada de miudos de ardosia e sentados em pequenas cadeiras alentejanas e, além disso fazia uns chupa-chupas de forma conica envoltos em papel manteiga a que chamavam "pirulitos". Só não me lembro se cheguei a comer algum, ou se os meus primos só me deixaram dar uma lambidela e por isso me lembro tão bem deles!!
Há uns tempos encontrei num site brasileiro a receita, a foto e a historia fantastica de uma senhora que faz e vende os seus pirulitos de mel!!
Engraçado! Estas coisas fazem-me sorrir...
Ingredientes e Preparo:
1 kg de açúcar (cristal ou refinado) --
Suco de 1 limão pequeno;
1 copo (200 ml) de água;
100 ml de mel.
Material:
Papel manteiga --
60 palitos para pirulito (encontrados em lojas de festas)
1 caixinha de papelão (Caixa de sapato)
Preparo:
Numa chaleira, colocar a água, o suco de limão, o mel e, aos poucos, o açúcar. Levar ao fogo brando e mexer por cinco minutos. Deixar por mais 20 minutos, até obter uma calda amarela, mais consistente. Deixar a calda descansar por cinco a 10 minutos na chaleira.
Cortar o papel manteiga em pedaços de 6 cm x 9 cm e enrolá-los em forma de cone, fechando no fundo para não vazar.
No fundo de uma caixinha de papelão (pode ser usada uma caixa de sapatos), abrir pequenos buracos (com 2 cm de diâmetro) para encaixar os cones. Depois de preenchê-los com a calda, deixá-los esfriar por 10 minutos, antes de colocar os palitos.
Deixar descansar em temperatura ambiente e servir (de preferência) no dia seguinte.
Rende de 50 a 55 pirulitos.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Algumas memórias...


Algumas memórias ...

Nestes dias de muito calor vieram-me à memória cenas da minha infância, passadas em férias num monte no Alentejo. Lembro-me da minha tia Bia clamar naquele falar algo arrastado e nasalado, enquanto passava a ponta do avental pela testa, para enxugar gotas de suor:
-Aaaiii, que caaalma!
Eu não entendia o que ela dizia. Tinha 7 ou 8 anos, vivia no mundo da Lua e aquele falar parecia quase uma língua estrangeira. Depois lá me disseram, não sei quem nem quando, que ela se referia ao calor que fazia. Ah! Bom! Mas então porque é que ela não dizia: -Ai que calor! Então se ela não dizia, dizia eu! A partir daí, sempre que ela clamava: -Aaaiii, que caaalma! – eu disparava logo. – Não é calma! É calor!
Era uma risota, mas na verdade eu não percebia porque é que ela não dizia calor! Não percebia aquela palavra que exprimia, não apenas um facto atmosférico mas também algo mais. Algo que não só era observável e sentido ao nível físico, mas sentido e percebido por outros sentidos. Quando fazia muito calor, e se tornava desconfortável andar na rua, pessoas e animais recolhiam-se e silenciavam. Não havia galinha, pato, cão, ovelha, animal de duas ou quatro patas, com ou sem asas que se atrevesse a prosseguir no seu vai vem, na sua lida diária. Só a minha Bia se atrevia, por necessidade, a prosseguir com os seus afazeres. Pois se não podia ser na rua, dentro de casa não lhe faltavam tarefas. A minha tia e as cigarras. Sim, as cigarras devem ser os únicos animais que em alturas de mais calor prosseguem os seus cantos, talvez pela certeza de que nenhum predador as irá interromper. Se bem que houvessem dias em que nem as cigarras aguentavam!

Tenho outras memórias desse Alentejo: os animais, os candeeiros a petróleo… fantásticos diga-se de passagem! Sob a sua luz tudo se fazia! Desde bordar ou coser e inclusive, e isto ainda é um mistério para mim, conseguíamos ver os mosquitos e apanhá-los. Hoje com lâmpadas eléctricas vejo-me em “palpos de aranha” para conseguir descortinar “unzinho”!
Recordo também a horta rodeada de altos ciprestes, que a mantinham fresca e abrigada dos “calores”, originando uma espécie de microclima. Nela crescia uma grande variedade de legumes e frutos da região, (ai que ricas meloas!). E um loureiro, enorme!



O poço com água fresca e límpida; as planícies que se estendiam em retalhos de cores, ora branco grés, ora verde, castanho, preto, sugerindo uma colcha de retalhos aconchegando a Mãe Terra; o Sol nascendo, uma enorme bola de fogo cor de laranja avermelhada, que nos acompanhava ao logo da estrada durante a viagem de ida, como que nos guiando; a Lua... Por falar em Lua, uma das minhas memórias favoritas são as horas a seguir ao jantar, quando todos vínhamos para fora de casa, estendíamos uma manta no chão à porta para os miúdos, os adultos sentavam-se em cadeiras, à luz dos candeeiros a petróleo e enquanto a minha tia fazia qualquer trabalho de costura ou outro, o meu tio Manel contava histórias, adivinhas e contos, até que os quartos arrefecerem e fossem horas de deitar. Mas os melhores serões eram aqueles quando nascia a Lua. Porque lá a Lua nasce grande, grande! Vêm-se os mares e montes e depois… nasce logo ali! Não há montes e serras como em Sintra, não há casas e prédios que ela tenha que trepar. Então… está logo ali! Corre-se o quê, cem, cento e cinquenta metros e pode-se tocar a Lua!
Bem, pelo menos era isso que o meu tio dizia! Quando a Lua começava a nascer na linha do horizonte, depois do campo de trigo, mesmo por detrás daquela azinheira à direita… aquela que está entre o caminho para a horta e aquela casa alta, do outro monte? O meu tio começava a instigar-me a ir agarrar a Lua.
- Vai Bélita! Corre! Vai agarrar a Lua! Ela é feita de queijo!
E eu corria! Corria até ao limite do caminho, onde começava o campo de trigo e entrava nele tacteando com os pés os grandes torrões de terra lavrada, envolvida nos restos das hastes do trigo seco e debulhado. Então a minha tia Bia começava a ficar aflita, não fosse eu cair e esfacelar-me toda, começava a gritar por mim que voltasse, a ralhar com o meu tio que não pusesse ideias na minha cabeça: - Que a moçinha ainda cai!
E foi assim que eu nunca toquei na Lua!
Mais tarde, já avisada pela minha tia e pelos risos dos meus primos, ainda encetava uma leve corrida até meio do caminho, parando e olhando ora para trás, para os instigadores cépticos, ora para frente, para a Lua, dividida entre o saber que brincavam comigo e o apelo da Lua. Ela parecia olhar para mim e dizer:
- Anda! Vem! Toca-me!
Ainda hoje quando me lembro dessa Lua, imagino como seria se conseguisse tocá-la? Estremeceria como se fosse uma imagem reflectida num lago? Faria ondas? Ou estremeceria como um gato o faz quando lhe fazemos festas? E o toque, seria macio como o pelo de um gato ou poderíamos mergulhar a mão ou fazer desenhos com o dedo como se fosse chantilly? Será doce como chantilly? Doce é o seu perfume. Perfume de Lua. Quando a Lua surge no céu, olho para ela e recebo a sua luz, e os seus raios de luar envoltos num aroma inebriante. Perfume de Lua. Subtil, misterioso e inebriante.


Florbela Graça
29/07/2005

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Ti Castelhanito e o grou

Sou nascida em Sintra, mas o meu sangue vem do Alentejo, mais precisamente do concelho de Serpa. E nesse sangue correm os sangues de mouros e espanhóis. Bem, pelo menos é o consta dos “anais da historia familiar”! Pois a verdade que há tempos idos, um espanhol ou melhor, um castelhano,  passou a fronteira e instalou-se por aquelas terras regadas pelas aguas do Guadiana, aquecidas pelo Sol, perfumadas com os aromas de flores, plantas e cheiro de terra. Terras onde os Deuses Antigos se entreteram a bordar o solo de várias cores e tons.

Paisagem alentejana

Da vida e história do ti "Castelhanito", pois que foi assim que ficou conhecido, não se sabe grande coisa, perdida que ficou no passar das gerações, entre alegrias e vidas difíceis. Há no entanto uma que resistiu, talvez por ter sido a ultima, e que se refere à sua morte.

Havia até há alguns anos uma ave majestosa que parava pelo Alentejo pelo Inverno (e que felizmente ainda por cá chegam alguns desses lindos seres), o grou. Ora, o grou é uma ave que ninguém come no Alentejo, era crença mui arraigada que quem comesse carne de grou viveria até aos 100 anos, mas que também, quiçá como castigo por desafiar a lei da vida e os designios de Deus, sofreria muito às portas da morte e a sua partida deste mundo seria demorada.
grous no Alentejo

Consta que o ti "Castelhanito", não sei se por vontade de viver ou por outra razão, teria consumido em alguma altura da sua vida a dita carne de grou. Já velho e com os 100 anos bem vividos, deitado no seu leito, sofrendo as agruras da morte, já tardando a entrega da sua alma ao abraço da dama negra e questionando-se os familiares pela causa de tal demora, alguém se lembrou de ter ouvido falar de tão estranha refeição.

Em qualquer aldeia existem sempre almas caridosas e preocupadas pela vida dos seus conterrâneos, geralmente algumas senhoras mui religiosas e virtuosas e que em gestos de pura bondade e desinteressadamente se oferecem para resolver a vidas de outros. Foi assim que quatro mulheres dessas, que para além disso eram conhecedoras de rezas e benzeduras, resolveram por sua iniciativa auxiliar o ti "Castelhanito",  a fazer a sua travessia, quais barqueiros de almas. Assim dirigiram-se a uma encruzilhada e colocando-se cada uma numa entrada dos caminhos, puseram-se a declamar em voz alta. Uma dizia de um lado: "ti "Castelhanito",  comeu carne de Grou, está passando ainda não passou", enquanto outro do outro lado respondia: "há-de passar", e assim sucessivamente, pois que se dizia que somente dizendo tal, o moribundo deixaria de sofrer e enfim descansaria nos braços da morte.

encruzilhada

Ora tais preparos chegaram aos ouvidos do filho que furioso por tal ousadia e deixando a beira do leito de morte do pai, abalou em busca das mulheres, correndo atrás delas brandindo um varapau. Valeram–lhes as pernas ligeiras e o medo das valentes porroadas que levariam e que as impulsionou a fugir por aqueles campos afora.

Não consta que o filho do Ti "Castelhanito",  tivesse conseguido alcançar alguma delas, se pela ligeireza delas, se por ter sido acalmado por terceiros. Ou que o ritual tivesse tido o efeito desejado, pois que abruptamente interrompido. O ti "Castelhanito",  terá finalmente morrido, diziam uns porque as rezas tinham realmente quebrado o encanto, outros porque Deus finalmente se condoera dele, apesar do sortilégio que cometera e finalmente permitira aos anjos carregarem a sua alma.

Grou no Alentejo a levantar voo


Florbela Graça
12/08/2011

terça-feira, 22 de março de 2011

Uma história

Uma historia...
.por Florbela Graça a Terça-feira, 22 de Março de 2011 às 22:32.

A Neblina dormitava, deitada sobre a Serra, o seu manto estendido até ao Mar. Observando de longe a bela e calma donzela, o Sol ficou enamorado dela e aproximando-se silenciosamente, estendendo os seus raios, tocou-a. Sobressaltada a Neblina acordou. Ao aperceber-se da presença do poderoso Sol, envergonhada e assustada a Neblina levantou-se e, descendo a encosta da Serra, mergulhou no Mar.

O Sol, agora sobre a Serra, olhava na direcção do Mar e triste chamava e clamava pela Neblina, a Donzela.

As árvores agitavam-se e as suas folhas, tremeluzindo e cintilando sob os raios do Sol, levavam o seu clamor por toda a Serra e pela Terra até ao Mar.

E assim ficou o Sol, debruçado sobre a Serra, triste, olhado para lá até ao Mar.

E eis que vinda das águas do Mar, uma Nuvem se ergueu. Primeiro de cor alva e branca depois, à medida que crescia e avançava, cada vez mais escura. Depressa a Nuvem cobria todo o Céu, do Mar até à Serra. Escura e imponente, aproximou-se do Sol e, ora insinuando-se junto dele, ora fugindo esquiva, a Nuvem dançava diante do Poderoso Sol. Não mais Neblina Donzela, frágil e assustada, mas Nuvem Mulher, plena e confiante. Languidamente deixou-se alcançar pelos raios do Sol, que a envolveram num abraço apaixonado, tocando-a com os seus raios quentes.

Os amantes cobriram o Céu e entre beijos e abraços, cobertos por véus nebulosos e trespassados por luminosos raios de vida, fizeram da Serra e da Terra até ao Mar o seu leito de amor.

Finalmente os amantes separam-se, o Sol adormecido, desliza em direcção ao Mar, a Nuvem, agora maior, mais escura e fecundada, preenche o Céu e cobre a Serra e a Terra até a Mar. O tremendo som do Trovão e o Cintilar do Relâmpago que lhe seguiu, estremeceu a Nuvem, como a dor do parto e a dela nasceu o fruto do seu acto de amor, a Chuva, que caiu sobre a Serra e sobre a Terra até ao Mar.

A Chuva cai e flui ao longo das encostas, dos campos e dos rios, percorrendo caminhos, preenchendo tudo e todos com a energia e a força vital do Sol e da Nuvem, alimentando as famintas e sequiosas criaturas da Serra e da Terra até ao Mar.

22/03/2011

(Num dia de Março Marçagão, que amanheceu com a serra de Sintra coberta de neblina, ao meio dia brilhava o Sol, que à tarde brincava com as nuvens, a tarde passou-se entre trovoada e chuva, terminando o dia numa noite calma, limpa e estrelada que aguarda pela chegada da Lua.)

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