A Coruja de Monte Suntria

Suntria é uma das denominações de Sintra...O Monte da Lua ...a coruja...sou eu!
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sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Moda alentejana...




“O Sol anda atrás da Lua,

E a Lua atrás do Luar.

Eu ando atrás dos teuus olhos,

Sem lho poder alcançar.



Sem lho poder alcançar,

O Sol anda atrás da Lua.

O Sol anda atrás da Lua,

E a Lua atrás do Luar.



(…)



O Luar do mês de Agosto,

Devassa-me o sentido.

Eu sonho com o teu rosto,

Ai de mim que estou perdido!



Ai de mim que estou perdido,

Nas teias do teu olhar.

O Luar do mês de Agosto,

Não lho posso aguentar!”



(…)

Moda alentejana…

segunda-feira, 30 de julho de 2012

AS BOLOTAS

AS BOLOTAS



Algumas receitas com bolotas

um dos principais alimento dos povos ancestrais lusitanos e que apesar de ser um fruto que caiu em desuso com o passar dos séculos ainda é consumido em algumas regiões rurais portuguesas.

“O fruto da sobreira chama-se lande (popularmente landre, alandia) e daí se formou Landal, Landeiro, Landeira: as landes servem de alimentação aos porcos nos montados alentejanos; só em certos casos as comem as pessoas.
O fruto da azinheira, que é doce ou amargo, chama-se bolota ou boléta (Alentejo), e, se serve igualmente para os porcos, entra também, quando é doce, na alimentação da gente (comem boléta no Alentejo, do mesmo modo que nos terrenos de castanha os respectivos povos comem estas).
O fruto (do carvalho) destinado a engorda de porcos, chama-se (analogamente ao do sobreiro e da azinheira) lande ou landre, bolota ou boleta, conforme as localidades, (apresenta-se) inserido numa cúpula.”José Leite de Vasconcelos: Etnografia portuguesa.

 Actualmente as bolotas e desde há algumas décadas não são um produto que tenha um mercado que justifique a sua produção para usos culinários e são utilizadas na sua maioria para alimentar porcos e outros animais. Todavia a bolota já foi um dos alimentos principais na dieta de alguns povos como os Lusitanos. Os Lusitanos para contornarem a escassez de cereais no Inverno, Colhiam as bolotas no Outono, transformavam-nas em farinha para produzir pão. Esta farinha uma vez seca, pode ser conservada durante todo o Inverno.

“Na quarta parte do ano não se mantêm senão de bolotas, que secas e trituradas, se moem para fazer pão, o qual pode guardar-se por muito tempo” Estrabão

A bolota apesar de conter taninos o que lhe confere um gosto um pouco amargo, é um fruto que continua a ser consumido e apreciado por algumas pessoas da região do Alentejo, em especial do Baixo-Alentejo. Infelizmente o uso tradicional culinário da bolota tem-se vindo a perder com o passar dos anos e é quase impossível conseguir bolotas nos grandes centros urbanos mas, aqui ficam algumas receitas que não caíram no esquecimento e continuam a ser confeccionadas pelas gentes do sul de Portugal. Para quem nunca teve a oportunidade de consumir bolotas aconselhamos vivamente que o façam pois para além de serem uma parte importante da nossa cultura gastronómica é um alimento saboroso e óptimo com vários nutrientes, vitaminas e proteínas.

Bolotas Assadas
As Bolotas podem ser comidas cruas, mas é comum serem assadas nas brasas das lareiras. As bolotas doces podem ser consumidas cruas e assadas sem qualquer problema, contudo nas bolotas amargas devem-se neutralizar ou eliminar os taninos.
O consumo de bolotas assadas ou cozidas é ainda bastante comum nas populações rurais de Portugal.

Receita do Pão/Bolo de bolota
A Farinha:
Apanhar bolotas doces.Tirar a casca e pôr de molho vários dias, mudando de água frequentemente.Cozer longamente em água. Os taninos irão tingir a água de vermelho. Recomeçar até que água saia clara. Este passo é fundamental para que os pães não fiquem amargos nem indigestos.Moer então as bolotas numa mó manual, à romana, (ou qualquer outro método mais moderno), até obter uma farinha.

O Pão:
Para fazer os bolos, seguir uma receita comum do pão (farinha de bolota, água, sal, fermento). Pode torná-la mais atractiva, tal como o fariam os lusitanos, incorporando mel, frutos secos ou um pouco de azeite, já à moda Romana.
(Fonte: Fórum Gastronomia)
*Pode-se adicionar farinha de milho ou de trigo para tornar o pão mais saboroso.

Sopa de Bolotas


Prepare uma sopa comum de feijão e batata mas substitua a batata por bolotas. As sopas em Portugal em tempos tiveram todas na sua base castanha e bolotas, mas depois dos descobrimentos e da introdução da batata em Portugal, esta substituiu as tradicionais castanhas e bolotas.

Queijinhos de bolota
 
Esta receita pertence ao livro de Soror Maria Leocádia Tavares de Sousa que professou no Convento da Conceição de Beja.
Ponha 500 g de açúcar em ponto de cabelo e deite 500 g de bolota, pelada e ralada. Junte uma clara de ovo e um pouco de canela. Retire do lume depois de ferver e deixe arrefecer. Com esta massa fina, molde com as mãos uns queijinhos, metendo no meio recheio de ovos-moles.
(Fonte: Sociedade agrícola do Freixo do Meio)

Doce de Bolotas

Cozem-se as bolotas e após estarem bem cozidas, retira-se a casca e a pele. Moem-se as bolotas e pesam-se. Levam-se as bolotas novamente ao lume com um pouco de água e com açúcar equivalente ao peso das bolotas. Deixa-se ferver alguns minutos até secar.Serve-se em taças com alguns frutos secos, ou utiliza-se como compota para recheio de bolos, barrar em pão…

Azevias


Pensa-se que as azevias eram também elas originalmente recheadas com um doce de bolotas pisadas com mel ao qual era adicionado grão, chila ou feijão.
http://tradicoesvivas.blogspot.com/2008/09/as-bolotas.html

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Bolo de boleta ou bolota

Bolo de Belota


Massa de pão (com farinha de bolota),
1 kg de farinha,
8 ovos,
500 g de açúcar
e canela.

Junte a massa do pão com a farinha. De seguida, acrescentam-se os ovos, o açúcar e a canela. Amassa-se tudo muito bem com as mãos. Barre uma forma com banha e farinha, deite o preparado e leve ao forno.
http://www.tudoben.com/gastronomia/receitas/bolo_belota.asp

Bolo de Bolota
1 kg de bolotas, peladas e trituradas
750 g de açúcar (se a bolota for doce) ou 1 kg (se for amarga)
125 g de chocolate em pó
2 gemas de ovos
Amassam-se muito bem todos os ingredientes. Tendem-se bolinhos pequenos, a que podem dar-se diferentes formatos. Por fim, envolvem-se em açúcar e colocam-se em forminhas de papel frisado.
3ºano, turma A
(receita confeccionada na comemoração do Dia de S. Martinho)

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Ti Castelhanito e o grou

Sou nascida em Sintra, mas o meu sangue vem do Alentejo, mais precisamente do concelho de Serpa. E nesse sangue correm os sangues de mouros e espanhóis. Bem, pelo menos é o consta dos “anais da historia familiar”! Pois a verdade que há tempos idos, um espanhol ou melhor, um castelhano,  passou a fronteira e instalou-se por aquelas terras regadas pelas aguas do Guadiana, aquecidas pelo Sol, perfumadas com os aromas de flores, plantas e cheiro de terra. Terras onde os Deuses Antigos se entreteram a bordar o solo de várias cores e tons.

Paisagem alentejana

Da vida e história do ti "Castelhanito", pois que foi assim que ficou conhecido, não se sabe grande coisa, perdida que ficou no passar das gerações, entre alegrias e vidas difíceis. Há no entanto uma que resistiu, talvez por ter sido a ultima, e que se refere à sua morte.

Havia até há alguns anos uma ave majestosa que parava pelo Alentejo pelo Inverno (e que felizmente ainda por cá chegam alguns desses lindos seres), o grou. Ora, o grou é uma ave que ninguém come no Alentejo, era crença mui arraigada que quem comesse carne de grou viveria até aos 100 anos, mas que também, quiçá como castigo por desafiar a lei da vida e os designios de Deus, sofreria muito às portas da morte e a sua partida deste mundo seria demorada.
grous no Alentejo

Consta que o ti "Castelhanito", não sei se por vontade de viver ou por outra razão, teria consumido em alguma altura da sua vida a dita carne de grou. Já velho e com os 100 anos bem vividos, deitado no seu leito, sofrendo as agruras da morte, já tardando a entrega da sua alma ao abraço da dama negra e questionando-se os familiares pela causa de tal demora, alguém se lembrou de ter ouvido falar de tão estranha refeição.

Em qualquer aldeia existem sempre almas caridosas e preocupadas pela vida dos seus conterrâneos, geralmente algumas senhoras mui religiosas e virtuosas e que em gestos de pura bondade e desinteressadamente se oferecem para resolver a vidas de outros. Foi assim que quatro mulheres dessas, que para além disso eram conhecedoras de rezas e benzeduras, resolveram por sua iniciativa auxiliar o ti "Castelhanito",  a fazer a sua travessia, quais barqueiros de almas. Assim dirigiram-se a uma encruzilhada e colocando-se cada uma numa entrada dos caminhos, puseram-se a declamar em voz alta. Uma dizia de um lado: "ti "Castelhanito",  comeu carne de Grou, está passando ainda não passou", enquanto outro do outro lado respondia: "há-de passar", e assim sucessivamente, pois que se dizia que somente dizendo tal, o moribundo deixaria de sofrer e enfim descansaria nos braços da morte.

encruzilhada

Ora tais preparos chegaram aos ouvidos do filho que furioso por tal ousadia e deixando a beira do leito de morte do pai, abalou em busca das mulheres, correndo atrás delas brandindo um varapau. Valeram–lhes as pernas ligeiras e o medo das valentes porroadas que levariam e que as impulsionou a fugir por aqueles campos afora.

Não consta que o filho do Ti "Castelhanito",  tivesse conseguido alcançar alguma delas, se pela ligeireza delas, se por ter sido acalmado por terceiros. Ou que o ritual tivesse tido o efeito desejado, pois que abruptamente interrompido. O ti "Castelhanito",  terá finalmente morrido, diziam uns porque as rezas tinham realmente quebrado o encanto, outros porque Deus finalmente se condoera dele, apesar do sortilégio que cometera e finalmente permitira aos anjos carregarem a sua alma.

Grou no Alentejo a levantar voo


Florbela Graça
12/08/2011

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Cante alentejano

O cante alentejano é um cantar tipico do sul de Portugal, como demostra o nome, do Alentejo. Cantado em grupo, pelos homens, nas casas, nos campos, nas tabernas ou pelas ruas, é um cantar feito só de vozes, sem acompanhamento de instrumentos musicais. O cante, no ritmo e no modo de entoar as canções varia, assim como o falar, de terra para terra, de vila para vila, de aldeia para aldeira. Os de Cuba não cantam  como os de Pias e os de Pias não cantam como os de Serpa.
Serpa...ai! Serpa!
Serpa é a minha outra metade. Sintra e Serpa...
http://www.youtube.com/watch?v=eZKZCnBMi9U&feature=related
O cante de Serpa é forte, ritmado, não se arrasta como o de outras terras alentejanas.
O cante de Serpa abre-me as portas da alma e solta-me torrentes de emoções...
às vezes, as modas mudam, os versos cantados não são exactamente iguais de uma terra para a outra, quadras de uma moda podem ser cantadas noutra. As quandras são pertença popular e têm essa liberdade...

Neste site abaixo podem encontrar informação sobre o cante alentejano, historia e contactos de varios grupos, ouvir algumas modas e ter acesso a algumas letras.

Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa
 "Fundado em 1928, com a designação de “Rancho Coral de Serpa”, ingressou em 1950 na Casa do Povo, passando a fazer parte da secção cultural deste Organismo com a denominação de “Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa”. O seu principal objectivo é a divulgação do folclore Alentejano e servir da melhor maneira o folclore Nacional." in
http://cantoalentejano.com/grupos/detgrupo.php?id=34


Serpa de Guadalupe
http://cantoalentejano.com/grupos/ouvir.php?mid=1
assim que cheguei
Apertar-me o coração
Cantando p'ra ti chorei
Tal é a minha paixão
Oh Serpa de Guadalupe
Das moralhas casas brancas
Dos poetas e pastores
Dos cantos até às tantas
Não se cansam as gargantas
Dos teus filhos a cantar
São preces à Santa Mãe
E ao seu encanto sem par
Oh Serpa do teu castelo
Avista-se o Guadiana
Tens o desenho mais belo
Da traça Alentejana
Outra moda

Oh minha mãe minha mã(e)
Oh minha mãe minha amada
Meu lírio roxo
Oh minha mãe minha amad(a)
Quem tem uma mãe tem tudo
Quem não tem mãe não tem nada
Meu lírio roxo
Quem não tem mãe, não tem
nada
Badajoz tem lindas damas
Portugal também as tem
Meu lírio roxo
Portugal também as tem
cante alentejano
Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa

http://www.youtube.com/watch?v=SiYYRdDk0ts&feature=related

A roupa do marinheiro
A roupa do marinheiro (bis)
Não é lavada no rio (bis)
É lavada no mar alto (bis)
À sombra do seu navio (bis)
À sombra do seu navio
À sombra do seu vapor
Não é lavada no rio
A roupa do meu amor
A roupa do meu amor (bis)
Não é lavada no rio (bis)
É lavada no mar alto (bis)
À sombra do seu navio (bis)


(ultimo tema)
http://cantoalentejano.com/grupos/ouvir.php?mid=14
Oh menina Florentina
Suspirava por te ver
Já matei a Saudade
Uma ausência custa muito
A quem ama de verdade
(e)Oh menina Florentina
És a flor que o meu peito domina:
Teu amante, delirante,
Da viagem chegou neste instante!
Já cá está o tiro-liro-liro tiro-liro-lé
Já cá está o tiro-liro-liro tiro-liro-ló,
já cá está o tiro-liro-liro oh amor,
Tiro-liro-liro, abre a porta, oh
branca flor!
Anda cá para os meus braços
Se tu vida queres ter
Os meus braços dão saúde
A quem está para morrer

terça-feira, 26 de abril de 2011

A avó "Trocanita"...

A avó "Trocanita"...


Conversava eu ontem com a minha mãe sobre amamentação (é o que faz ter amigas "prenhunitas"!) e de mulheres que podiam voltar a ter leite e de um post num grupo sobre amamentação e ela lembrou-se de uma história que os antigos contavam em Serpa e que relacionavam com a santa padroeira N. Sª da Guadalupe, (cujas festas são na Pascoa sendo o dia mais festivo a 2ª feira com uma procissão pela vila, seguindo depois até ao Altinho(s. gens)na 3ª feira, para levar de volta a imagem da santa, seguida de um piquenique na encosta do monte de s. gens, pelo menos era assim).

andei à procura e encontrei! Segue abaixo com o link para o caso de quererem ver uma descrição mais completa.

" (...)

Graças incontáveis se atribuem à intercessão da Virgem de Guadalupe, atestadas pelas ofertas que Ela constantemente recebe e pelos peregrinos que, quase todos os dias, percorrem o caminho da ermida.

A mais conhecida de todas é o milagre da Tia Troncanita, em parte, porque a referida velhinha viveu ainda muitos anos para o contar e os seus descendentes ainda vivem entre nós, e também porque ele ficou representado num pequeno quadro, que se conserva na capela e onde se lê o seguinte:



«Este quadro representa o portentoso milagre que fez N. S. de Guadalupe em obséquio de um menino que ficou sem mãi a poucos dias de ter nascido, é neto de Maria Troncanita, e foi o dia des de Outubro de 1868, que vendo o menino sem sustendo pediu de todo o coração a N. S. a dita avô do menino mulher de 50 anos, que lhe deparasse quem lhe desse de mamar, e ao poco tempo foi tanta a abundância de leite que teve a sua avô, que já ficava satisfeito.»

Ver em Serpa Tradição - In Tradição II vol. Anno VI, Nº 2, Serpa, Fevereiro de 1904, Volume VI, pp. 25 a 26 (Relato de um milagre atribuído à Senhora de Guadalupe), de LADISLAU PIÇARRA.

Em 1946, mais propriamente em 1 de Dezembro, foi o Concelho de Serpa consagrado à Senhora de Guadalupe, pelo Arcebispo de Beja D. José do Patrocínio Dias. Tem esta capela um painel (ex-voto) em que se faz referência a um milagre da Senhora de Guadalupe, na pessoa de uma mulher, a avó "Trocanita".

A lenda:

AINDA ha bem poucos annos, via-se mendigar pelas ruas de Serpa uma velhinha octogenaria, chamada Maria de Guadalupe Troncanita.

A velha Troncanita, como vulgarmente a designavam, tornára-se celebre, porque, em sua humilde pessoa, havia-se operado um grande milagre, tão extraordinario esse milagre que ficára profundamente gravado na memoria do povo serpense, e até figura numa das nossas selectas escolares.

A historia do maravilhoso acontecimento tive eu a dita d'ouvir da propria bôca de Troncanita, em novembro de 1897, contando ella nessa occasião 88 annos d'edade approximadamente. Essa historia contou-m'a a pobre velhinha muito commovida, com a voz tremula e entrecortada de lagrimas. Evidentemente, as suas palavras não occultavam o menor disfarce.

Passemos á interessante narração:

Teriam decorrido uns 39 annos, - disse-me a velha Troncanita, - falleceu lhe uma filha casada, que deixou na orfandade uma creancita do sexo masculino, tendo apenas 3 dias d'edade. A Troncanita, muito afflicta por causa do seu infeliz netinho, pois não encontrava quem o amamentasse, de mãos postas e joelhos no chão, durante tres semanas, pediu a Nossa Senhora de Guadalupe que "lhe deparasse uma ama" para aquelle innocentinho. E com fé tão ardente foram proferidos seus rogos, que um bello dia, estando Troncanita a lavar uns cueiros do neto, no tanque da horta dos "Pisões", onde ella era hortelôa, sentiu os peitos apoiados, e, ordenhando-os immediatamente, viu com grande pasmo que dambos esguichava em abundancia o leite providencial.

Quando este facto succedeu, já havia onze annos que Troncanita tinha dado á luz o ultimo filho, e, por conseguinte, desde ha muito que o seu leite seccára. Nestas condições, é fácil de calcular o assombro que um tal fenomeno produziria no espirito publico!

A noticia espalhôu-se rapidamente, e muita gente correu logo a casa de Troncanita para certificar-se de visu de tão singular occorrencia. Com effeito, a mystica e carinhosa avó lá estava alimentando o neto com o seu proprio leite.

A secreção lactea nos seios apparentemente atrofiados de Troncanita, era uma realidade que ninguem podia contestar; o que, porém, surprehendia toda a gente, eram as circumstancias anormaes em que se produzia aquella funcção organica. Comtudo, o facto ali estava patente aos olhos de todos, e tão impressivo que passou - como era naturalíssimo - á tradicão oral.

O mesmo acontecimento acha-se commemorado num pequeno e modestissimo quadro, existente na ermida da Guadalupe, cuja pintura representa, dum lado N. S. de Guadalupe com o menino Jesus, e, do outro, Maria Troncanita aleitando o neto, tendo ao pé de si um cão grande, que sempre a acompanhava. Entre estas duas pinturas, destaca-se uma pequena gravura representando uma mesa sobre a qual se vê um crucifixo.

Por baixo lê-se o seguinte distico:

- "Este quadro representa o portentoso milagre que fes N. S. de Guadalupe em obsequio de um menino que ficou sem mãi a poucos dias de ter nasido, é neto de Maria Troncanita, e foi o dia des de outubro de 1868, que vendo o menino sem sus-tento pediu de todo coração a N. S. a dita avô do menino mulher de 50 annos, que lhe deparasse quem lhe desse de mamar, e ao poco tempo foi tanta a abundancia de leite que teve a sua avô, que já ficava satifeito."

Convém notar que a lactaçâo de que vimos falando, não se limitou a um fenomeno fugaz, que apparecesse e desapparecesse como que por encanto; pelo contrario, manteve-se por um longo periodo de 14 mezes, que tantos foram os que durou a amamentação, e ao fim dos quaes morreu a creanca.

Por mais extraordinario e anómalo que pareça este facto, não podemos deixar de considerá-lo como authentico, visto que razão alguma se nos apresenta em contrario. Todavia

, não é caso unico, outros identicos a sciencia registra. Apontam-se até alguns factos excepcionaes de mulheres que tiveram leite capaz de amamentar, embora essas mulheres nunca tivessem concebido. No proprio homem tem-se manifestado já a secreção lactea. (*) Mas, nem por isso, o caso de Troncanita deixa de ser muito interessante, revelando-se como um effeito da suggestão religiosa.

Psychologicamente, explica-se pela incontestavel influencia que as imagens e as ideias exercem sobre as funcções da vida vegetativa.

A ideia da amamentação que tão intensamente agitava Maria Troncanita, é que, indubitavelmente, actuou por intermedio dos nervos sobre os elementos histologicos das glandulas mammarias, fazendo-as segregar o almejado leite.

In Tradição II vol. Anno VI, Nº 2, Serpa, Fevereiro de 1904, Volume VI, pp. 25 a 26 (Relato de um milagre atribuído à Senhora de Guadalupe), de LADISLAU PIÇARRA.
http://www.joraga.net/gruposcorais/pags09_pautas_09_CSerpa_MRitaOPC/0554_CdeSerpa_MRitaCortez_p342_122_NSGuadalupe.htm