A Coruja de Monte Suntria

Suntria é uma das denominações de Sintra...O Monte da Lua ...a coruja...sou eu!

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Algumas memórias...


Algumas memórias ...

Nestes dias de muito calor vieram-me à memória cenas da minha infância, passadas em férias num monte no Alentejo. Lembro-me da minha tia Bia clamar naquele falar algo arrastado e nasalado, enquanto passava a ponta do avental pela testa, para enxugar gotas de suor:
-Aaaiii, que caaalma!
Eu não entendia o que ela dizia. Tinha 7 ou 8 anos, vivia no mundo da Lua e aquele falar parecia quase uma língua estrangeira. Depois lá me disseram, não sei quem nem quando, que ela se referia ao calor que fazia. Ah! Bom! Mas então porque é que ela não dizia: -Ai que calor! Então se ela não dizia, dizia eu! A partir daí, sempre que ela clamava: -Aaaiii, que caaalma! – eu disparava logo. – Não é calma! É calor!
Era uma risota, mas na verdade eu não percebia porque é que ela não dizia calor! Não percebia aquela palavra que exprimia, não apenas um facto atmosférico mas também algo mais. Algo que não só era observável e sentido ao nível físico, mas sentido e percebido por outros sentidos. Quando fazia muito calor, e se tornava desconfortável andar na rua, pessoas e animais recolhiam-se e silenciavam. Não havia galinha, pato, cão, ovelha, animal de duas ou quatro patas, com ou sem asas que se atrevesse a prosseguir no seu vai vem, na sua lida diária. Só a minha Bia se atrevia, por necessidade, a prosseguir com os seus afazeres. Pois se não podia ser na rua, dentro de casa não lhe faltavam tarefas. A minha tia e as cigarras. Sim, as cigarras devem ser os únicos animais que em alturas de mais calor prosseguem os seus cantos, talvez pela certeza de que nenhum predador as irá interromper. Se bem que houvessem dias em que nem as cigarras aguentavam!

Tenho outras memórias desse Alentejo: os animais, os candeeiros a petróleo… fantásticos diga-se de passagem! Sob a sua luz tudo se fazia! Desde bordar ou coser e inclusive, e isto ainda é um mistério para mim, conseguíamos ver os mosquitos e apanhá-los. Hoje com lâmpadas eléctricas vejo-me em “palpos de aranha” para conseguir descortinar “unzinho”!
Recordo também a horta rodeada de altos ciprestes, que a mantinham fresca e abrigada dos “calores”, originando uma espécie de microclima. Nela crescia uma grande variedade de legumes e frutos da região, (ai que ricas meloas!). E um loureiro, enorme!



O poço com água fresca e límpida; as planícies que se estendiam em retalhos de cores, ora branco grés, ora verde, castanho, preto, sugerindo uma colcha de retalhos aconchegando a Mãe Terra; o Sol nascendo, uma enorme bola de fogo cor de laranja avermelhada, que nos acompanhava ao logo da estrada durante a viagem de ida, como que nos guiando; a Lua... Por falar em Lua, uma das minhas memórias favoritas são as horas a seguir ao jantar, quando todos vínhamos para fora de casa, estendíamos uma manta no chão à porta para os miúdos, os adultos sentavam-se em cadeiras, à luz dos candeeiros a petróleo e enquanto a minha tia fazia qualquer trabalho de costura ou outro, o meu tio Manel contava histórias, adivinhas e contos, até que os quartos arrefecerem e fossem horas de deitar. Mas os melhores serões eram aqueles quando nascia a Lua. Porque lá a Lua nasce grande, grande! Vêm-se os mares e montes e depois… nasce logo ali! Não há montes e serras como em Sintra, não há casas e prédios que ela tenha que trepar. Então… está logo ali! Corre-se o quê, cem, cento e cinquenta metros e pode-se tocar a Lua!
Bem, pelo menos era isso que o meu tio dizia! Quando a Lua começava a nascer na linha do horizonte, depois do campo de trigo, mesmo por detrás daquela azinheira à direita… aquela que está entre o caminho para a horta e aquela casa alta, do outro monte? O meu tio começava a instigar-me a ir agarrar a Lua.
- Vai Bélita! Corre! Vai agarrar a Lua! Ela é feita de queijo!
E eu corria! Corria até ao limite do caminho, onde começava o campo de trigo e entrava nele tacteando com os pés os grandes torrões de terra lavrada, envolvida nos restos das hastes do trigo seco e debulhado. Então a minha tia Bia começava a ficar aflita, não fosse eu cair e esfacelar-me toda, começava a gritar por mim que voltasse, a ralhar com o meu tio que não pusesse ideias na minha cabeça: - Que a moçinha ainda cai!
E foi assim que eu nunca toquei na Lua!
Mais tarde, já avisada pela minha tia e pelos risos dos meus primos, ainda encetava uma leve corrida até meio do caminho, parando e olhando ora para trás, para os instigadores cépticos, ora para frente, para a Lua, dividida entre o saber que brincavam comigo e o apelo da Lua. Ela parecia olhar para mim e dizer:
- Anda! Vem! Toca-me!
Ainda hoje quando me lembro dessa Lua, imagino como seria se conseguisse tocá-la? Estremeceria como se fosse uma imagem reflectida num lago? Faria ondas? Ou estremeceria como um gato o faz quando lhe fazemos festas? E o toque, seria macio como o pelo de um gato ou poderíamos mergulhar a mão ou fazer desenhos com o dedo como se fosse chantilly? Será doce como chantilly? Doce é o seu perfume. Perfume de Lua. Quando a Lua surge no céu, olho para ela e recebo a sua luz, e os seus raios de luar envoltos num aroma inebriante. Perfume de Lua. Subtil, misterioso e inebriante.


Florbela Graça
29/07/2005

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