A Coruja de Monte Suntria

Suntria é uma das denominações de Sintra...O Monte da Lua ...a coruja...sou eu!

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Ti Castelhanito e o grou

Sou nascida em Sintra, mas o meu sangue vem do Alentejo, mais precisamente do concelho de Serpa. E nesse sangue correm os sangues de mouros e espanhóis. Bem, pelo menos é o consta dos “anais da historia familiar”! Pois a verdade que há tempos idos, um espanhol ou melhor, um castelhano,  passou a fronteira e instalou-se por aquelas terras regadas pelas aguas do Guadiana, aquecidas pelo Sol, perfumadas com os aromas de flores, plantas e cheiro de terra. Terras onde os Deuses Antigos se entreteram a bordar o solo de várias cores e tons.

Paisagem alentejana

Da vida e história do ti "Castelhanito", pois que foi assim que ficou conhecido, não se sabe grande coisa, perdida que ficou no passar das gerações, entre alegrias e vidas difíceis. Há no entanto uma que resistiu, talvez por ter sido a ultima, e que se refere à sua morte.

Havia até há alguns anos uma ave majestosa que parava pelo Alentejo pelo Inverno (e que felizmente ainda por cá chegam alguns desses lindos seres), o grou. Ora, o grou é uma ave que ninguém come no Alentejo, era crença mui arraigada que quem comesse carne de grou viveria até aos 100 anos, mas que também, quiçá como castigo por desafiar a lei da vida e os designios de Deus, sofreria muito às portas da morte e a sua partida deste mundo seria demorada.
grous no Alentejo

Consta que o ti "Castelhanito", não sei se por vontade de viver ou por outra razão, teria consumido em alguma altura da sua vida a dita carne de grou. Já velho e com os 100 anos bem vividos, deitado no seu leito, sofrendo as agruras da morte, já tardando a entrega da sua alma ao abraço da dama negra e questionando-se os familiares pela causa de tal demora, alguém se lembrou de ter ouvido falar de tão estranha refeição.

Em qualquer aldeia existem sempre almas caridosas e preocupadas pela vida dos seus conterrâneos, geralmente algumas senhoras mui religiosas e virtuosas e que em gestos de pura bondade e desinteressadamente se oferecem para resolver a vidas de outros. Foi assim que quatro mulheres dessas, que para além disso eram conhecedoras de rezas e benzeduras, resolveram por sua iniciativa auxiliar o ti "Castelhanito",  a fazer a sua travessia, quais barqueiros de almas. Assim dirigiram-se a uma encruzilhada e colocando-se cada uma numa entrada dos caminhos, puseram-se a declamar em voz alta. Uma dizia de um lado: "ti "Castelhanito",  comeu carne de Grou, está passando ainda não passou", enquanto outro do outro lado respondia: "há-de passar", e assim sucessivamente, pois que se dizia que somente dizendo tal, o moribundo deixaria de sofrer e enfim descansaria nos braços da morte.

encruzilhada

Ora tais preparos chegaram aos ouvidos do filho que furioso por tal ousadia e deixando a beira do leito de morte do pai, abalou em busca das mulheres, correndo atrás delas brandindo um varapau. Valeram–lhes as pernas ligeiras e o medo das valentes porroadas que levariam e que as impulsionou a fugir por aqueles campos afora.

Não consta que o filho do Ti "Castelhanito",  tivesse conseguido alcançar alguma delas, se pela ligeireza delas, se por ter sido acalmado por terceiros. Ou que o ritual tivesse tido o efeito desejado, pois que abruptamente interrompido. O ti "Castelhanito",  terá finalmente morrido, diziam uns porque as rezas tinham realmente quebrado o encanto, outros porque Deus finalmente se condoera dele, apesar do sortilégio que cometera e finalmente permitira aos anjos carregarem a sua alma.

Grou no Alentejo a levantar voo


Florbela Graça
12/08/2011

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

"Em Busca da Calêndula Perdida"


 Quero falar sobre uma coisa com q me deparei , ou apercebi, esta semana: Encontrar calêndula à venda parece praticamente impossível! Tenho comprado "calêndula" em ervanárias, seca, pequenas flores tipo malmequeres, embaladas, de empresas supostamente de confiança e com o rotulo a dizer calendula officinalis, estava descansadinha e confiante. Até que há uns meses encontrei, de uma das empresas q já tinha comprados anteriormente, a calêndula em pétalas, como se vê em blogs e sites estrangeiros. Dei-me conta que o que anteriormente comprava não era calêndula, embora estivesse identificada como tal. Examinando com atenção, os tais malmequeres são exactamente isso: malmequeres amarelos do campo, daqueles que cobrem os campos no inicio da Primavera! http://profs.ccems.pt/Palma/Flores%20Silvestres/Classificacao/Ordens/Dicotiledoneas/Asterales/Asteraceae/Amarelas/textos/Chrysanthemum%20myconis.htm

e que ainda por cima (se forem estes, são considerados alérgenos) http://www.wildflowers.co.il/english/allergenIndex.asp

em cima calendula officinalis; em baixo o malmequer vendido como calendula


Lembrei então de que numa das visitas a uma das ervanárias, em resposta a uma outra cliente a empregada disse que era “calendula dos prados”, e por isso ser diferente. Falei com a minha mae e ela disse-me que no Alentejo havia uma erva parecida com a calendula, mas mais pequena à qual chamavam de “erva-vaqueira”, mas que ninguém, nem as vacas do meu avô apreciava. Mas isto deu-me cá volta ao miolo e tinha porque tinha de ver afinal se aquela planta q vendiam como calendula seria afinal a tal erva vaqueira.

Armada de pc, teclado e Google, lá fui eu em “Busca da calêndula perdida”!

E o que “descobri” foi que existem varias espécies de calêndula, (no site plantamed http://www.plantamed.com.br/, estão referidas mais de 30!) e que a tal erva vaqueira é uma delas! O seu nome cientifico é calendula arvenses http://www.biorede.pt/images.asp?id=1079  e é de menor porte (até cerca de 30cm, enquanto a calendula officinalis ou calendula dos jardins pode atingir os 60cm), as propriedades são semelhantes embora a calendula officinalis, seja mais potente e tenha mais aplicações.

Em ingles são conhecidas como field marigold (calendula arvensis) e pot marigold (calendula officinalis), enquanto a marigold se refere aos tagetes (cravos tunicos ou cravo de defunto), mas isso é outra historia.

Mais uma vez isto mostra como é importante, conhecer os nomes científicos das plantas para as poder diferenciar de outras com as mesmas denominações populares e que muitas vezes não tem nada a ver umas com as outras.

Agora o que me parece inconcebível é que empresas supostamente credíveis e de confiança vendam por calendula officinalis outra planta!!

Agora não sei exactamente qual planta que estão a vender mas será calendula ?!?!?!